Relato Parto Natural – Nascimento do Bernardo (parte 3)

 

Para ler a parte 1 e parte 2 do relato, clique AQUI.

 

PÓS PARTO – O NASCIMENTO DA PLACENTA

– Dani, já se passaram 20 minutos e a placenta não saiu, vamos precisar chamar um anestesista para com urgência para te anestesiar e tirarmos ela, ok?

Fiquei muda, só olhei para meu marido e fiz sim com a cabeça. Não sei quantos minutos se passaram ali… fiquei imóvel, agarrada ao Bernardo e tentando assimilar a nova informação.

Eu tinha acabado de passar 30 horas em trabalho de parto sem nenhum tipo de anestesia e agora, depois de tudo, teria que tomar anestesia para retirarem uma placenta de dentro de mim? Deus só podia estar brincando comigo. Mas não chorei, se tenho que tomar, que tome! Meu filho tá aqui, nasceu do jeito que eu queria, o resto era o resto!

 

CHAMANDO O ANESTESISTA

Ligaram para o anestesista, falaram em Francês mas pelo que entendi, mandaram ele vir o mais rápido possível. Eu fiquei sem reação, só lembro que o médico me mandou escolher qual anestesia queria e eu disse que não queria a geral, só a do quadril para baixo. (Não sei nem diferenciar por nome, tamanha minha crença de que jamais precisaria de uma)

Ele fez mais uma tentativa, já tinha tentado puxar a placenta pelo cordão, e empurrou minha barriga, tentando fazer com que ela descesse! Misericórdia, que dor absurda!!! Não deixem jamais empurrarem seus bebês durante o parto, isso tinha que ser considerado crime!!!! É dolorido demais, forte e machuca.

Nada da bendita nascer! Passou mais uns 2 minutos e a enfermeira (aquela que nos agradeceu pelo parto, lembram?) entrou no quarto e disse: menina, coloca essa placenta pra fora! Depois de um parto desse? Diga para ela sair e fim. Nessa hora me deu um clique! O que? Eu empurrei uma criança para fora de mim a sangue frio e essa porcaria não quer sair? Nem a pau!

a melhor enfermeira de todas
A melhor enfermeira de todas

 

 

MEUS ÚLTIMOS MILÍMETROS DE FORÇA

Sem avisar ninguém, ergui o Bernardo mais para cima dos meus seios e comecei a fazer força… prendi a respiração e mentalizei… sai de mim, pelo amor de Deus, sai de mim!

Óh óh óh, esperem… tem algo saindo, disse o médico!

amamentação

Mais uma força, e outra… tudo sem respirar, ninguém entendendo nada e… Ploft! Saiu!!!! Mentalizei todos os palavrões possíveis, chorei, caraca!!! Agarrei meu filho e chorei… lembro só de a enfermeira vindo me abraçar, dizer “eu tinha certeza que você ia conseguir” e sumir… eu nunca mais a vi… passei 3 dias no hospital e já voltei lá várias vezes depois do parto.. eu N U N C A  M A I S a vi! Me arrepio, só de pensar nisso. Se ela soubesse o que ela significa para mim, se eu soubesse que ela mudou o rumo de todo o meu parto… se ela soubesse que vou lembrar dela até o último dia de minha vida… aahhh se ela soubesse!

Eu não estranharia se ela fosse alguém muito além de a enfermeira que estava presente no meu parto, mas isso é coisa entre eu e o cara lá em cima, um dia eu tiro a limpo! Rss

Voltando a maca…

Dani, ótimo! Sua placenta saiu, porém, você teve laceração e vou ter que dar alguns pontos, ok? Ok Dr.! Anestesia local e alguns pontos para a conta, fim!

Parabéns pelo parto, se você quiser ir embora hoje, posso te dar alta, mas como você está bem cansada, recomendaria ficar pelo menos até amanhã, tudo bem por vc? Sim! Tudo bem, fico aqui.

 

nosso primeiro dia

 

Fiquei 2 dias no hospital e voltamos para casa! Aqui na Suíça é permitido ir para casa após algumas horas do parto, mas como estava exausta, preferi descansar antes de ir.

 

maternidade
Meus dois meninos

 

 

DE VOLTA PARA CASA

Vocês estão achando que esse relato tá acabando, né? Pois senta que lá vem história!

4 dias depois de voltarmos para casa começo a sentir dor de cabeça, “deve ser fraqueza, estou amamentando demais” E segui como se não fosse nada. No dia seguinte acordo com dor de cabeça de novo, resolvo tomar um banho e… começo a sangrar absurdamente, algo que me lembrou aborto de filme! Fiquei assim por uns 2 minutos e gritei pelo meu marido, chão repleto de sangue e ele correndo para ligar para a enfermeira responsável por mim após a saída do hospital. (Aqui cada gestante possui uma enfermeira que a acompanha em casa nas semanas seguintes ao nascimento, até tudo estar definitivamente ok).

Ela está sangrando muito, devemos ir para o hospital? – Não, isso deve ser normal! É o corpo expelindo o sangue do útero, fiquem tranquilos. Tomei paracetamol para a dor de cabeça e fui deitar um pouco.

Dois dias depois a dor de cabeça voltou acompanhada de contrações absurdamente fortes que chegavam a me lembrar as contrações do parto. Fui para o banho e pá! De novo, sangue para todo lado… dessa vez nem ligamos para a enfermeira e fomos direto para a emergência. Minha mãe ainda estava aqui, deixamos Antonio com ela e levamos Bernardo junto por conta do mamá.

 

recém nascido

 

 

DE VOLTA AO HOSPITAL

Fiquei umas 2 horas lá, exame de urina, sangue, pressão… e a reveladora, ultrassom! É Dani, realmente tem algo no seu útero. Não sabemos se é placenta ou apenas sangue, mas já está com infecção, então vamos precisar tratar imediatamente! Você precisa expelir isso.

O QUE? tem mais coisa? Minha Nossa Senhora dos Partos, que teste é esse?

Ok, mas, por favor, me dá algum remédio para a dor! Quer dizer, espera! Eu estou amamentando, os remédios são liberados na amamentação? – Sim! Te daremos um tratamento adaptado para a amamentação. Ok! Então me dá logo, por favor!

As dores eram absurdas, depois do ultrassom intravaginal, elas triplicaram de força e quase me enlouqueceram. Sai do hospital direto para a farmácia, já tomei os analgésicos lá mesmo e fui me contorcendo até em casa. Tive que tomar uma sacola de remédios, entre eles o Citoteque, remédio abortivo que expulsa tudo que existe dentro do útero. Tive muita aflição de tomar esse remédio, até porque, fui pesquisar ele no Google e li coisas horríveis sobre quem usa ele. Mas enfim, eu tinha que expelir tudo aquilo, já estava infeccionado e o risco de passar para os outros órgãos existia.

Foram 3 dias de angústia e nada de expelir, o sangue normal do pós parto tinha praticamente parado e nada do “corpo estranho” sair. No quarto dia, estava sentada no sofá quando sinto algo escorregar de mim, só grito pela minha mãe, “pega o Bernardo que acho que tô sangrando muito”, e corro para o banheiro. Saiu, algo enorme, de uns 20 cm mais ou menos, que ao meu olhar leigo, parecia placenta envolta em sangue, mas que jamais saberei o que era. Lembro da sensação daquilo saindo de mim até agora, acho que fiquei tocada pelas histórias de aborto usando o mesmo remédio que estava tomando, e aquilo me marcou.

 

 

ENFIM, O FIM!

 

Agora sim, uma ponta de tranquilidade surgiu em mim. Tomei antibióticos por 10 dias para garantir que a infecção desaparecesse e voltei ao hospital para o retorno. Quem me atendeu foi a médica que falava português, lembram dela da primeira parte do relato? Contei toda a história, o problema com a placenta e as dores, ela refez todos os exames e me garantiu que, agora, tudo estava bem.

Tentei descobrir o que era aquilo, levei fotos e vídeos do que saiu de mim, mas só obtive respostas generalizadas. Pode ter sido sangue que ficou lá dentro, um pedacinho de placenta, bactérias que entraram durante os toques feitos no trabalho de parto para conferir a dilatação… um monte de possibilidades, daquelas que existem até mesmo em um parto cesárea, era o acaso! Não é comum, mas acontece.

Sai de lá aliviada e certa de que tudo tinha acabado, mas algo me dizia, e diz até hoje, que aquele empurrão/forçada que o médico deu na minha barriga tentando fazer com que a placenta saísse, fez com que ela se rompesse e ficasse um pedacinho lá, vai saber! O médico é um super profissional, atencioso, respeitoso e foi ele que escolhi para ser meu ginecologista depois do parto, mas digo e repito, médico é humano e erros acontecem em todo e qualquer lugar/país. Não entrego 100% do meu corpo e da minha confiança para ninguém!

Saída da maternidade
Saída da maternidade
Nossa nova família!
Nossa nova família!

Jamais saberei o que aconteceu, só sei que depois desse parto, a Dani aqui, é outra mulher. Se você está pensando “nossa, era muito melhor ter feito uma cesárea e sofrido muito menos” desculpa, mas você não entendeu nadinha disso aqui!

Se existir um terceiro parto em minha vida, ele será sem anestesia, sem médico, em casa, com meus dois filhos e uma parteira enviada por Deus, assim como no último parto. Eu quero é isso, eu vivo pra isso! Para ter experiências, para ter o que contar, para viver!!!

O blog está bombando com esse relato e, a única coisa que desejo, é inspirar pelo menos uma mulher a ter parto normal, se isso acontecer, meu papel estará cumprido.

Que a Nossa Senhora do Bom Parto ilumine a hora de vocês, seja em breve ou no futuro.

 

Para ler a parte 1 e parte 2 do relato, clique AQUI.

 

Beijos nossos,

 

Dani, papai, Bernardo e Antonio. : )

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